"-Saia da minha aldeia. Vá com o resto dos imperialistas. Vá antes que eu chame os japoneses em pessoa.
-Está escrito: "Se um estranho vier até vós e pedir-vos hospitalidade, recebei-o para serdes bem-visto aos olhos de Alá."
O chefe da aldeia olhara para ele, apalermado. Pele moreno-escura, bolero curto, sarongue multicolorido e o pano de cabeça enfeitado na escuridão que aumentava.
-O que sabe do Alcorão e das palavras do Profeta?
-Louvado seja o seu nome - respondera Peter Marlowe. - O alcorão foi traduzido em inglês há muitos anos por muitos homens. - Estava lutando pela vida. Sabia que, se pudesse ficar na aldeia, poderia conseguir um barco para chegar até a Australia. Não que soubesse manobrar um barco, mas valia a pena correr o risco. O cativeiro seria a morte.
-Você é um dos Fieis? - Perguntara o chefe, atônito.
Peter Marlowe hesitava. Podia fingir que era muçulmano. Parte do seu treinamento constara no estudo do Livro do Islã. Os oficiais das forças de Sua Majestade tinham que servir em muitas terras. Oficiais hereditários são treinado em muitas coisas acima e além da educação formal.
Se dissesse que sim, estaria a salvo, pois a maioria dos javaneses era muçulmana.
-Não, não sou um dos Fieis - Estava cansado, no fim das suas forças. - Pelo menos, não sei se sou. Ensinaram-me a crer em Deus. Meu pai nos costumava dizer, a mim e as minhas irmãs, que Deus tem muitos nomes. Até mesmo os cristãos dizem que existe uma Santissima Trindade... que existem partes de Deus.
"Não acho que importe o nome se dê a Deus. Deus não vai incomodar-se de ser chamado de Jesus, ou Alá, ou Buda, ou Jeová, ou até mesmo Você!... porque, se é Deus, sabe que somos meros mortais e que não sabemos muito de coisa alguma.
"Acredito que Maomé foi um homem de Deus, um profeta de Deus. Acho que Jesus também foi um homem de Deus, como Maomé se refere a ele no Alcorão, o 'mais imaculado dos Profetas'. Que Maomé tenha sido o último dos Profetas, como alegava, isso eu não sei. Acho que nós, humanos, não podemos ter certeza de nada que se relacione com Deus.
"Mas não creio que Deus seja um velho com longas barbas brancas que fica sentado num trono dourado lá no alto do céu. Não creio, como Maomé prometeu, que os Fiéis irão para um paraiso onde se deitarão em divãs de seda e beberão vinho e terão muitas donzelas ao seu dirpos, ou que o Paraiso será um jardim cheio de folhagens verdes, riachos puros e árvores frutiferas. Não creio que os anjos tenham asas nas costas."
A noite cobriu a aldeia. Um bebê chorou e foi ninado até dormir de novo.
-Um dia, saberei ao certo porque nome devo chamar Deus. O dia em que morrer. - O silêncio pesou. - Acho que seria muito deprimente descobrir que não existe Deus.
O chefe da aldeia fizera sinal para Peter Marlowe para sentar-se
-Pode ficar. [...]"
[Transcrito por mim do livro "Changi" de "James Clavell" (o mesmo autor de Shogun e Tai-pan que os que me conhecem, sabem que adoro. Achei interessante, pois creio que seja atualmente bem similar a minha visão de Deus]
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
domingo, 30 de agosto de 2009
sábado, 1 de agosto de 2009
Reflexão
"I think ... um, um ... there are more people that are bad than there are good. And, um ... if you're good, you'll live forever. And, if you're bad, you'll die when you die ..."
"Eu acho.. hum.. existem mais pessoas que são más do que boas. E, hum.. se você é bom, você vai viver para sempre. E, se você é mau, você morre quando você morre..."
[Retirado da Música: I can feel him in the morning - Grand Funk Railroad]
Música na integra:
"Eu acho.. hum.. existem mais pessoas que são más do que boas. E, hum.. se você é bom, você vai viver para sempre. E, se você é mau, você morre quando você morre..."
[Retirado da Música: I can feel him in the morning - Grand Funk Railroad]
Música na integra:
sábado, 18 de julho de 2009
Conto
O FILÓSOFO
Educado no Colégio Caraça, o coronel Venâncio Figueira, fazendeiro em Uberaba, havia se contaminado, pouco a pouco, de filosofia e de latim, de modo a preocupar-se, mais do que o necessário, com os graves problemas da vida. Manuseador quotidiano de certos autores profanos, ele se punha, às vezes, a pensar, no alpendre da sua casa de fazenda:
- Sim, senhor! Esses filósofos têm razão! Este mundo é tão desigual, tão cheio de injustiças, de irregularidades clamorosas, que qualquer mortal, encarregado de fazê-lo, o teria feito melhor!
E acentuava, melancólico:
- Este mundo está muito mal feito!...
À noite, porém, reunida a família na sala de jantar, o velho fazendeiro arreganhava os óculos no nariz, tomava a "Bíblia", chegava para mais perto o lampião de querosene, e punha-se a ler, pausado, o "Livro de Jó". E começava, de novo, a meditar, diante destas palavras do capitulo 38:
"4. Onde estavas tu, quando eu fundava a terra? Faze-mo saber, se tens inteligência.
"25 - Quem abriu para a inundação um leito, e um caminho para os relâmpagos e trovões?
"41 - Quem prepara aos corvos o seu alimento, quando os seus filhotes implumes gritam a Deus, e andam vagueando por não terem de comer?"
Certo dia, dominado pelas idéias reacionárias bebidas em autores modernos, passeava o coronel pelo pátio da fazenda, quando, ao ver as andorinhas que voejavam por cima do gado, voltou novamente a raciocinar:
- É isso mesmo, não há duvida! O mundo é muito mal arranjado. Aqui está, por exemplo; este boi. Porque, tendo ele chifres, patas, orelhas, e sendo tão forte, há de viver sempre na terra, a arrastar-se pelo solo, quando aquela andorinha, que não tem nada disso, se locomove, rápida, ligeira, dominando os ares?
Nesse momento, porém, uma andorinha que lhe passava por cima, deixou escapar alguma cousa que lhe fazia sobrecarga, e que foi cair, certeira, na cabeça descoberta do coronel. Este levou a mão instintivamente à calva, e, olhando os dedos brancos daquela indignidade, caiu de joelhos, clamando, arrependido:
- Perdoai-me, Senhor, perdoai-me! O mundo está muito bem organizado! O que nele há, o que nele vive, o que nele existe, foi feito com perfeição, com acerto, com sabedoria!
E levantando-se, limpando a mão:
- Imagine-se que fosse um boi....
[Humberto de Campos]
Educado no Colégio Caraça, o coronel Venâncio Figueira, fazendeiro em Uberaba, havia se contaminado, pouco a pouco, de filosofia e de latim, de modo a preocupar-se, mais do que o necessário, com os graves problemas da vida. Manuseador quotidiano de certos autores profanos, ele se punha, às vezes, a pensar, no alpendre da sua casa de fazenda:
- Sim, senhor! Esses filósofos têm razão! Este mundo é tão desigual, tão cheio de injustiças, de irregularidades clamorosas, que qualquer mortal, encarregado de fazê-lo, o teria feito melhor!
E acentuava, melancólico:
- Este mundo está muito mal feito!...
À noite, porém, reunida a família na sala de jantar, o velho fazendeiro arreganhava os óculos no nariz, tomava a "Bíblia", chegava para mais perto o lampião de querosene, e punha-se a ler, pausado, o "Livro de Jó". E começava, de novo, a meditar, diante destas palavras do capitulo 38:
"4. Onde estavas tu, quando eu fundava a terra? Faze-mo saber, se tens inteligência.
"25 - Quem abriu para a inundação um leito, e um caminho para os relâmpagos e trovões?
"41 - Quem prepara aos corvos o seu alimento, quando os seus filhotes implumes gritam a Deus, e andam vagueando por não terem de comer?"
Certo dia, dominado pelas idéias reacionárias bebidas em autores modernos, passeava o coronel pelo pátio da fazenda, quando, ao ver as andorinhas que voejavam por cima do gado, voltou novamente a raciocinar:
- É isso mesmo, não há duvida! O mundo é muito mal arranjado. Aqui está, por exemplo; este boi. Porque, tendo ele chifres, patas, orelhas, e sendo tão forte, há de viver sempre na terra, a arrastar-se pelo solo, quando aquela andorinha, que não tem nada disso, se locomove, rápida, ligeira, dominando os ares?
Nesse momento, porém, uma andorinha que lhe passava por cima, deixou escapar alguma cousa que lhe fazia sobrecarga, e que foi cair, certeira, na cabeça descoberta do coronel. Este levou a mão instintivamente à calva, e, olhando os dedos brancos daquela indignidade, caiu de joelhos, clamando, arrependido:
- Perdoai-me, Senhor, perdoai-me! O mundo está muito bem organizado! O que nele há, o que nele vive, o que nele existe, foi feito com perfeição, com acerto, com sabedoria!
E levantando-se, limpando a mão:
- Imagine-se que fosse um boi....
[Humberto de Campos]
Poesia
Ao coração que sofre, separado
Do teu, no exílio em que a chorar me vejo,
Não basta o afeto simples e sagrado
Com que das desventuras me protejo.
Não me basta saber que sou amado,
Nem só desejo o teu amor: desejo
Ter nos braços teu corpo delicado,
Ter na boca a doçura de teu beijo.
E as justas ambições que me consomem
Não me envergonham: pois maior baixeza
Não há que a terra pelo céu trocar;
E mais eleva o coração de um homem
Ser de homem sempre e, na maior pureza,
Ficar na terra e humanamente amar.
[Olavo Bilac]
sexta-feira, 10 de julho de 2009
Frase
"Vencer não é competir com o outro. É derrotar os seus inimigos interiores.
É a própria realização do ser."
É a própria realização do ser."
segunda-feira, 22 de junho de 2009
Conto
UM DOM JUAN DE PROVÍNCIA
Quando fui pela primeira vez àquela patriarcal cidade de província, o Linhares, que eu chamava primo, por ser filho da primeira mulher de meu pai, não quis que eu ficasse no hotel, e levou-me para sua casa, onde havia um quarto de hóspedes.
Durante os dias que ali me demorei fui carinhosamente tratado, e ainda hoje sou reconhecido aos favores do primo Linhares e de sua família, senhora e cinco senhoritas casadeiras.
Eu não fazia outra coisa todos os dias senão passear pela cidade, e à tarde, depois de jantar, o primo Linhares mandava colocar sete cadeiras no passeio, à porta da rua, e ele, a senhora, as senhoritas e eu sentavam-nos ao ar livre, e conversávamos até ao escurecer. Era muito divertido.
Numa das tardes em que estávamos assim, perambulando sobre os mais variados assuntos, surgiu de uma esquina, a cem passos do lugar em que nos achávamos, o vulto esguio de um rapaz moreno, de grandes bigodes, envolto numa capa espanhola e com a cabeça coberta por um grande chapéu desabado.
O primo Linhares, mal que o viu, ergueu-se e disse imperiosamente às senhoritas:
- Meninas, vão para dentro: vem ali o Flávio Antunes!...
As cinco senhoritas levantaram-se e desapareceram, correndo no interior da casa.
E o primo Linhares explicou-me:
- Aquele Flávio Antunes é um patife, um sedutor de senhoras casadas, um Don Juan!... Não consinto que as pequenas olhem para ele!... Não há nesta cidade sujeito mais desmoralizado! Nenhum pai de família honrado o recebe em casa!
E como o tal Flávio Antunes se aproximasse:
- Olhe para aquele todo! Veja! - o tipo completo do conquistador!...
E o transeunte, que era, efetivamente, um rapagão, passou fazendo ao primo Linhares um cumprimento, que não foi correspondido.
* * *
Um ano depois, o primo veio ao Pio de Janeiro. Fui recebê-lo na estação da Estrada de Ferro, e tratei logo de perguntar pela família.
- Estão todos bons. A minha pequena mais velha foi pedida à semana passada.
- Por quem?
- Por um excelente rapaz - o Flávio Antunes.
- Perdão... mas o Plávio Antunes não era...
- Era sim! mas que quer você? Com aquela coisa de mandar as meninas para dentro todas as vezes que ele passava lá por casa, fiz-lhe um extraordinário reclame! Todas elas gostavam dele, e ele gostou da mais velha!
- Ora! Hão de ser muito felizes.
- Sim, mesmo porque, melhor informado, me convenci de que a má reputação do pobre rapaz era unicamente devida àquela capa espanhola e aquele chapéu desabado!
- Deveras?
- Eram mais as nozes que as vozes, e se algumas falcatruas fez ele, coitado, foi em conseqüência do reclame que lhe fazíamos, eu e outros pais de família.
[Artur Azevedo]
Quando fui pela primeira vez àquela patriarcal cidade de província, o Linhares, que eu chamava primo, por ser filho da primeira mulher de meu pai, não quis que eu ficasse no hotel, e levou-me para sua casa, onde havia um quarto de hóspedes.
Durante os dias que ali me demorei fui carinhosamente tratado, e ainda hoje sou reconhecido aos favores do primo Linhares e de sua família, senhora e cinco senhoritas casadeiras.
Eu não fazia outra coisa todos os dias senão passear pela cidade, e à tarde, depois de jantar, o primo Linhares mandava colocar sete cadeiras no passeio, à porta da rua, e ele, a senhora, as senhoritas e eu sentavam-nos ao ar livre, e conversávamos até ao escurecer. Era muito divertido.
Numa das tardes em que estávamos assim, perambulando sobre os mais variados assuntos, surgiu de uma esquina, a cem passos do lugar em que nos achávamos, o vulto esguio de um rapaz moreno, de grandes bigodes, envolto numa capa espanhola e com a cabeça coberta por um grande chapéu desabado.
O primo Linhares, mal que o viu, ergueu-se e disse imperiosamente às senhoritas:
- Meninas, vão para dentro: vem ali o Flávio Antunes!...
As cinco senhoritas levantaram-se e desapareceram, correndo no interior da casa.
E o primo Linhares explicou-me:
- Aquele Flávio Antunes é um patife, um sedutor de senhoras casadas, um Don Juan!... Não consinto que as pequenas olhem para ele!... Não há nesta cidade sujeito mais desmoralizado! Nenhum pai de família honrado o recebe em casa!
E como o tal Flávio Antunes se aproximasse:
- Olhe para aquele todo! Veja! - o tipo completo do conquistador!...
E o transeunte, que era, efetivamente, um rapagão, passou fazendo ao primo Linhares um cumprimento, que não foi correspondido.
* * *
Um ano depois, o primo veio ao Pio de Janeiro. Fui recebê-lo na estação da Estrada de Ferro, e tratei logo de perguntar pela família.
- Estão todos bons. A minha pequena mais velha foi pedida à semana passada.
- Por quem?
- Por um excelente rapaz - o Flávio Antunes.
- Perdão... mas o Plávio Antunes não era...
- Era sim! mas que quer você? Com aquela coisa de mandar as meninas para dentro todas as vezes que ele passava lá por casa, fiz-lhe um extraordinário reclame! Todas elas gostavam dele, e ele gostou da mais velha!
- Ora! Hão de ser muito felizes.
- Sim, mesmo porque, melhor informado, me convenci de que a má reputação do pobre rapaz era unicamente devida àquela capa espanhola e aquele chapéu desabado!
- Deveras?
- Eram mais as nozes que as vozes, e se algumas falcatruas fez ele, coitado, foi em conseqüência do reclame que lhe fazíamos, eu e outros pais de família.
[Artur Azevedo]
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